O Curso de Estratégia Militar para Gestores de Negócios
Por Gen Ex Sérgio Ernesto Alves CONFORTO, do Centro de Estudos Estratégicos da FAAP*
A idéia inicial era denominar o curso de “Estratégia Militar para Empresários”, mas iniciado o ano letivo passado, os próprios alunos acharam o termo limitativo, tendo em vista os conteúdos e objetivos, e propuseram “Gestores de Negócios”, julgado muito mais abrangente, por estender-se a qualquer homem ou mulher que, de alguma forma, tenha responsabilidades em relação a uma empresa, escritório, consultório, mandato, enfim, qualquer ramo da atividade humana moderna.
Certamente não se trata de um curso de administração de empresas, pois destes existem muitos reconhecidamente excelentes. Também não se trata de um curso que ensine a alguém a ciência militar voltada para o combate, o uso legal da violência. Trata-se de muito mais que isto. Comecemos fazendo uma análise, ainda que superficial, do termo “Estratégia”.
Derivado da antiga língua grega, significava “A Arte do General”, e por “General” devemos entender o chefe maior, de todas as forças, o mais experiente e sábio, capaz de liderar grandes efetivos em missões sempre arriscadas.
Com o tempo, e coerentemente com o pensamento de Sun-Tzu, precursor da Estratégia e que emitiu os primeiros conceitos sobre o tema há 25 séculos, associou-se o termo estratégia à arte de convencer o adversário a desistir do combate (“o mérito supremo consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar...”) ou então a iludi-lo, colocando-o em posição desvantajosa de tal forma a apressar-lhe a derrota com um mínimo de desgaste para o lado vitorioso.
Das poucas linhas acima já se pode extrair alguns dos conteúdos do curso, a saber: Planejamento, bom uso de experiência e sabedoria, capacidade de liderança, análise de riscos; saber dissimular e, ao mesmo tempo, ser invulnerável às ações enganosas do adversário. Mas há muito mais. O curso é estruturado de forma a fazer com que os que o acompanham sejam colocados em contato, de uma forma progressiva, com assuntos e informações que normalmente são objeto de estudo aprofundado nas escolas militares de mais alto nível das forças armadas de todo o mundo, particularmente o Brasil |
A turma, coordenadores e professor em sala de aula. |
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Quem transmite tais informações são militares e civis de larga experiência didática naqueles estabelecimentos, e também com passagem em países estrangeiros. Todos têm o grau mínimo de “Doutor”, seja em ciências militares, seja em outros ramos do conhecimento.
A turma, coordenadores e professor em frente ao Prédio 1 da FAAP. |
A maior parte do tempo é dividida em palestras, discussões dirigidas e trabalhos individuais ou em grupo, visitas e, pelo menos, uma viagem de maior duração.
No ano passado nossos alunos visitaram a Amazônia brasileira, tomando contato com a realidade diferente do que se recebe diuturnamente através da mídia. Voltaram emocionados, orgulhosos e muito mais patriotas. Emocionaram-se ao ver o trabalho anônimo de nossas forças armadas em localidades de nomes desconhecidos em nossas fronteiras, presenciaram o orgulho e a emoção de ser brasileiro, ainda que anonimamente, mas ainda sim responsável não só pela defesa do patrimônio territorial herdado de nossos antepassados e conquistado através de suor, sangue, doenças, lágrimas, vidas, mas também como praticamente única fonte de desenvolvimento e assistência à população daquelas áreas. |
A comitiva da FAAP antes do embarque para a Amazônia. |
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Viram um comandante verter lágrimas junto com eles, sempre igualmente sensibilizado ao cantar o Hino Nacional enquanto é hasteada a nossa bandeira em um mastro feito de tronco, em um lugar distante várias semanas por embarcação através da selva, uma selva que é, ao mesmo tempo, mãe e madrasta, suave e feroz, aliada ou inimiga, ou ainda somente atingível após várias horas de vôo em aeronaves que pousam em pistas precárias, visitadas, quando muito, mensalmente. Ah, poderia falar tanto desta viagem, da ida ao Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo - CINDACTA, das palestras feitas por autoridades civis e militares, e da visita à mais respeitada escola de sobrevivência, liderança e combate nas selvas de todo o mundo (o Centro de Instrução de Guerra na Selva –CIGS, do Exército Brasileiro). |
![]() A comitiva da FAAP participando de formatura militar no 5º Pelotão de Fronteira, em Maturacá – AM (no sopé do Pico da Neblina, ao fundo). |
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![]() A comitiva da FAAP conhecendo a flora amazônica, próximo ao rio Solimões |
![]() Encontro das águas dos rios Negro e Solimões, formando o Amazonas. |
![]() Sobrevôo do rio Negro, perto da junção com o rio Solimões (encontro das águas), em aeronave Blackhawk do Exército brasileiro. |
![]() Comitiva da FAAP assistindo à apresentação do Comando Militar da Amazônia. |
![]() O amanhecer às margens do rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira – AM, com as elevações conhecidas como A Virgem Adormecida ao fundo. |
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Voltemos ao curso.
Não há fenômeno de maior complexidade e tão freqüente na história da humanidade do que a guerra. Os conhecimentos para o preparo e execução de conflitos são aplicáveis, muitas vezes com vantagens, em qualquer outro tipo de competição ou empreendimento.
Devemos, a partir deste ponto, entender o termo “guerra” como o duelo entre vontades, a luta pela conquista de objetivos, em presença de antagonismos e pressões de toda ordem, sem que, frequentemente, não sejam desencadeadas ações de violência.
A partir deste entendimento, passar-se-á a entender que, seja na relação entre pessoas, seja entre empresas ou nações, ainda que no chamado “tempo de paz”, estamos permanentemente mergulhados em acontecimentos a que se aplicam de maneira muito proveitosa os conhecimentos militares. Ler-se-á o noticiário com outros olhos, reconhecer-se-á as mensagens ocultas nos filmes, pronunciamentos políticos, propaganda de toda natureza, será percebido o emprego cotidiano dos instrumentos de dominação.
Aquilo que sempre se fez e se faz ainda com soldados e armas de toda espécie, cada vez mais sofisticadas, passou a ser feito também com cientistas, diplomatas, jornalistas, profissionais da propaganda, psicólogos, professores, economistas, etc, etc.
Falemos mais sobre o curso.
Sua duração de cerca de 360 horas, se por um lado atende às exigências mínimas das autoridades educacionais brasileiras para a pós-graduação, permite ainda fornecer as ferramentas indispensáveis que permitirão aos alunos, já dotados de educação superior, transportar para o seu cotidiano, para as suas profissões, aquilo que vem sendo secularmente desenvolvido, aplicado e aperfeiçoado pelos vitoriosos de todo o mundo.
Despertará ainda, pela consciência de coisas não comumente sabidas pelas outras pessoas, o desejo de poder interferir, liderar, corrigir rumos, conduzir de maneira mais correta as coisas não só das empresas, mas da nação como um todo. Sentir-se-ão capazes disto, de entender e direcionar os destinos de nosso país. Virão a integrar-se a uma elite verdadeiramente eficaz, desejada, ansiada.
Em linhas muito gerais o curso consta, ainda, de:
- Produção científica do conhecimento, isto é, a forma de comunicar e implementar idéias, por intermédio de um trabalho de conclusão de curso;
- Ciência Política, como base para a compreensão e inserção do debate político e ainda para a formulação de políticas no próprio campo de atuação. Compreende ainda o estudo do PODER e sua aplicação;
- Prospectiva – A metodologia para reconhecer, estabelecer e corrigir caminhos que conduzam aos objetivos visados. É a busca, perseguição do futuro desejado. É aonde se aprende a confeccionar cenários;
- Geopolítica – A compreensão do panorama estratégico global e nacional, dos fatores que condicionam o estabelecimento de políticas nos âmbitos nacional e internacional, o porquê das coisas acontecerem;
- Relações Internacionais– É a aplicação prática, cotidiana das leis da Geopolítica, conhecimento dos temas dominantes da agenda política internacional. Tendências, teorias e embates atuais;
- Estratégia, Segurança e Defesa – Evolução, métodos, campos de atuação, principais escolas de pensamento e formulação. A teoria e a prática do PODER;
- Inteligência competitiva e contra-inteligência – A era do conhecimento e da manipulação de vontades e da opinião pública. O trabalho da manipulação de vontades e espiões e a segurança das informações;
- Ciência,Tecnologia e Inovação– O mundo atual e do futuro. Relacionamento com as expressões do poder nacional;
- Logística e Mobilização– Visualização da influência da ciência logística e da mobilização de recursos na formulação de estratégias;
- Liderança– A liderança estratégica (mais alto nível) e a liderança reversa (do subordinado dirigida para o superior). Pontos de contato e diferenças entre as lideranças civil e militar. O enfrentamento de crises;
- Fase conjuntural – O que está acontecendo no Brasil e no mundo em relação a todos os aspectos vistos em teoria. O papel do meio ambiente como instrumento de aplicação do poder; a Amazônia, o Atlântico Sul, a Antártida e nossos vizinhos.
Conclusão.
Sempre é possível adiantar que os que concluírem o curso se sentirão realizados e felizes de serem denominados “estrategistas”. Serão inoculados com o “vírus estratégico” e dele não mais abrirão mão. Reconhecerão que não há verdades absolutas, que toda moeda (todo acontecimento, todo fenômeno social), tem duas e, às vezes, muito mais faces.
Passarão a perceber o que acontece à retaguarda dos bastidores internacionais, nacionais e empresariais. Tornar-se-ão íntimos do futuro, e aprenderão a mudá-lo, de acordo com os interesses que elegerão.
Verão oportunidades onde os outros enxergam problemas; mergulharão de cabeça quando todos desistem e serão cautelosos quando os demais estiverem eufóricos.
Serão desejosos de mudanças, motivados, decididos. Antecipar-se-ão às crises. Verão a realidade de forma especial. Trabalharão com fatos e não suposições. O contexto estará em análise permanente. Terão como traço comum quebrar hábitos. Serão inimigos do “sempre foi assim e deu certo”, e do “mas todo mundo faz”. Não se conformarão com o que já está bom, buscando sempre fazer com que as coisas aconteçam mais rápido, melhor e mais economicamente. Terão uma vida muito intensa, cheia de dinamismo. Serão pessoas diferentes, destacar-se-ão dos demais. Não serão carneiros em um rebanho. |
O estrategista destacando-se na multidão. |
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Poderão, mais tarde, externar suas opiniões, dizendo coisas muito próprias e pessoais, como as que temos ouvido de muitos ex-alunos, e das quais cito duas, como fecho desta modesta apresentação.
1- De um professor, engenheiro, portador de vários cursos de aperfeiçoamento e pós-graduação, inclusive no exterior:
- “Nem no Pentágono me ensinaram o que vocês transmitem aqui”.
2 - De um empresário bem sucedido
- “O curso de vocês mudou a minha vida”.
O desafio de conhecer este curso está lançado, para você leitor, e para nós, integrantes do Centro de Estudos Estratégicos da FAAP, que fazemos a gestão acadêmica do mesmo.
Cabe a todos nós enfrentá-lo, e dele tirar o melhor proveito.
* O Gen Ex Sérgio Ernesto Alves CONFORTO é Ministro do Superior Tribunal Militar.
** Todas as fotos (com exceção da última) são de autoria de Fernando A. Silveira, fotógrafo da FAAP.