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Relevantes atividades extracurriculares valorizam o semestre letivo na Faculdade de Economia

Além da aula inaugural sobre Raúl Prebisch, ministrada pelo professor Edgar J. Dosman, da York University, em Toronto, Canadá, e da diversificada programação da Semana de Estudos de Economia e Relações Internacionais, os alunos da Faculdade de Economia tiveram oportunidade de participar de excelentes atividades extracurriculares, um dos diferencias da FAAP em relação a outras instituições de ensino.

Até o final de setembro foram realizadas as seguintes atividades:

A carreira diplomática

Em 29 de agosto, o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia, recepcionou o embaixador Georges Lamazière e o diplomata Márcio Rebouças em palestra sobre o concurso de admissão à carreira diplomática.

O embaixador Lamazière, falou da estrutura do curso, sustentado por três grandes pilares: as disciplinas regulares, a formação linguística e os módulos práticos. Comentou também sobre as sucessivas promoções pelas quais os diplomatas passam ao longo da carreira: de 3o a 1o secretário, deste para conselheiro, ministro de 2a classe e, finalmente, ministro de 1a classe ou embaixador. A promoção de conselheiro a ministro de 2a classe está condicionada à apresentação de um trabalho acadêmico, num nível intermediário entre uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado.

Márcio Rebouças, por sua vez, preocupou-se em enfatizar o desejo do Instituto Rio Branco em garantir o ingresso de candidatos que representem a ampla diversidade da sociedade brasileira. Como esforços nesse sentido, destacou pequenas reformas promovidas na estrutura do concurso, a aplicação da prova em todas as capitais do País e a promoção de bolsas de incentivo a candidatos afrodescendentes. Mencionou ainda o gradativo aumento do percentual de candidatas mulheres aprovadas no concurso, que hoje representam cerca de 25% do corpo diplomático do Itamaraty.

Falou do formato do concurso, constituído por quatro fases, sendo a primeira uma prova objetiva, abrangendo todas as disciplinas, seguida de três fases discursivas. Ressaltou a importância e dificuldade da primeira prova, que elimina aproximadamente 95% dos candidatos. Segundo Rebouças, uma das competências avaliadas pelo concurso é a persistência, de modo que o candidato deve estar ciente de que o preparo pode levar alguns anos.

Por fim, Rebouças ofereceu duas grandes orientações aos candidatos: que estudem todas as provas e editais dos anos anteriores e inscrevam-se nas provas como treineiros, a fim de se familiarizarem com o formato e o nível de cobrança.

O papel da parceria estratégica União Europeia-Brasil no atual contexto internacional

No dia 2 de setembro, a Faculdade de Economia recebeu a visita de Christian Leffler, diretor-executivo para Américas do Serviço de Ação Exterior da União Europeia (EEAS, em inglês), acompanhado da embaixadora Ana Paula Baptista Grade Zacarias, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil, para uma palestra dirigida a alunos e professores do curso de Relações Internacionais.

O diplomata europeu começou sua fala com o que ele chamou de óbvio, ou seja, delineando as relações entre União Europeia (UE) e Brasil, que ele classificou de desenvolvidas, antigas, baseadas em princípios e valores e interesses em comum. Ele admitiu que há diferenças neste relacionamento, mas estas são abertas e possíveis de discussão e busca de pontos em comum.

De acordo com Leffler, estas ações são importantes, uma vez que a UE é um importante parceiro comercial do Brasil, já que 25% das exportações brasileiras têm como destino a Europa, e um quinto das importações vêm de lá. Além do mais, uma importante parte do investimento estrangeiro na economia brasileira é feita por empresas europeias, montante superior ao que investiram até hoje na China ou Índia juntas.

O diplomata europeu destacou que boa parte destes dados são consequência das mudanças econômicas e políticas ocorridas no Brasil nos últimos anos, o que levou ao estabelecimento da parceria estratégica. Esta, explicou, consiste no diálogo constante em vários setores, que, apesar das diferenças na busca por soluções, são um fator importante que ajudam a União Europeia internamente, pois induz os governos a discutir seus próprios problemas.

Por outro lado, ressaltou Leffler, as relações não são baseadas somente nas diferenças. Há várias concordâncias, como o apoio ao regionalismo e multilateralismo, aos valores fundamentais para a responsabilidade coletiva com respeito aos direitos humanos e qualidade dos governos, além das discussões no tema de mudanças climáticas. E, por fim, em áreas que chamam menos atenção, como a Missão da ONU para o Haiti, comandada pelo Brasil e com amplo apoio europeu, e vários fóruns de negociações trilaterais para assistência ao desenvolvimento no continente africano.

O palestrante destacou ainda que, devido à realidade da União Europeia, é muito difícil conseguir explicá-la, uma vez que ela é uma união de Estados soberanos, mas também de indivíduos. Esta segunda realidade levou à criação dos representantes eleitos nos diversos órgãos da UE, que são importantes elementos na busca de parcerias entre as sociedades europeias, assim como desatas com outras em todo o mundo, sempre em busca da promoção da confiança, abertura e liberdade.

Por tudo isso, encerrou o diplomata europeu, a parceria estratégica entre União Europeia e Brasil é mais profunda e importante do que normalmente se imagina.

Primavera Árabe: a democracia virá?

“Espero que nossos filhos se encontrem um dia para elogiar-nos por aquilo que realizamos, ao invés de discutir os mesmos assuntos que estamos debatendo hoje”. Esta frase, proferida pelo decano do Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil, Ramez Goussous, do Reino Hashemita da Jordânia, em palestra sobre a Primavera Árabe, realizada em 19 de setembro, na FAAP, marcou a tônica da conversa e discussão sobre o impacto deste fenômeno de natureza sócio-política, que tem alterado profundamente a região, com a deposição de ditaduras e renovação de liderança em vários dos países localizados no mundo árabe, espalhando-se por todo o Oriente Médio e norte da África, com a queda dos regimes da Tunísia, Egito e Líbia.

Para Goussous, a Primavera Árabe representa a oportunidade de abraçar-se a uma nova visão quanto à ordem sócio-política, particularmente no sentido de criar oportunidades sustentáveis e fazer florescer valores morais universais, que defendam uma nova perspectiva de paz numa região marcada pelo conflito constante.

Desde o seu início na Tunísia, devido à crise econômica mundial, a juventude tem desempenhado um relevante papel ao apresentar à sociedade seu descontentamento e insatisfação com a situação que lhes afeta profundamente. Uma grande parte deles no Oriente Médio tem sofrido as consequências dos problemas econômicos que têm afligido o mundo nos últimos anos. Tal frustração econômica tem ensejado vários levantes de natureza política, particularmente quanto à alteração dos rumos e destinos daqueles povos.

A falta de acesso equitativo aos bens sociais tem representado um enorme impeditivo nas esperanças da juventude quanto ao futuro. Ademais, o desejo coletivo pela paz e justiça, até então relegados a um segundo plano, a partir deste fenômeno sócio-político, têm alterado, profundamente, a agenda regional. Goussous afirmou que a Primavera Árabe certamente servirá como um ponto de reflexão, ao estimular todos os lados do espectro político a analisarem suas perspectivas quanto ao crescimento econômico, com melhor utilização dos recursos existentes, que não deveriam ser desperdiçados em conflitos.

Ao analisar o histórico de seu próprio país, a Jordânia, enfatizou o distinto modelo de coexistência entre muçulmanos e cristãos, que tem representado uma possibilidade de solidificação do processo de paz social. Este modelo também deveria servir como parâmetro no relacionamento entre judeus e palestinos, principalmente no momento em que as Nações Unidas analisam a viabilidade da formação de um Estado Palestino, uma promessa desde o momento inicial da própria Organização. A resolução da questão palestina, que passa por um “túnel escuro”, sem maiores perspectivas, é essencial para reduzir a tensão, violência, insegurança e instabilidade que ainda persistem, apesar do movimento de renovação representado pela Primavera Árabe.

O embaixador Goussous enfrentou, com muita destreza, as mais variadas questões brilhantemente articuladas pelos participantes do evento. Participaram do debate os professores José Alexandre Hage e Marcus Vinícius de Freitas, além dos embaixadores Bachar Yaghi, da Liga Árabe, e Ibrahim Alzeben, da Palestina, o CEO da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Michel Alaby, e Mustafá Abdouni, cônsul honorário da Jordânia em São Paulo.

Ao final de sua exposição, o embaixador Goussous relembrou que o pastor batista Martin Luther King pregava o conceito de um “Grande Lar Mundial”, no qual toda a humanidade, brancos e negros, ricos e pobres, do Oriente e do Ocidente, de todos os credos, deveriam entender que não se pode viver isoladamente. Este sonho, no entanto, ainda permanece como algo a ser atingido. Por fim, concluiu afirmando “Você pode ignorar a realidade, porém não pode afastar as consequências de tal decisão!”

11 de setembro: 10 anos depois

No dia 20 de setembro, foi realizado um painel para analisar as consequências dos atentados às torres gêmeas do World Trade Center.

Participaram do painel o embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia e os professores Guilherme Casarões e William Waack, do curso de Relações Internacionais.

Em sua primeira intervenção, o embaixador Ricupero optou por ler o artigo de sua autoria, publicado na Folha de S. Paulo na própria semana dos acontecimentos (vide Box 1).


Box 1

MUDAM-SE OS TEMPOS

Rubens Ricupero
Folha de S. Paulo, 16 de setembro, 2001.

Mudam-se as vontades, dizia Luís de Camões. O espantoso ataque ao coração vital dos Estados Unidos não só inaugura novos tempos. Ele já mudou de golpe a vontade, isto é, a estratégia. Em lugar da guerra nas estrelas, a guerrilha rasteira, terra a terra, contra inimigo invisível. Em vez da busca da segurança individual de um só país por meio de escudo invulnerável contra mísseis de Estados bandidos, a construção coletiva de coalizões diplomáticas para combater o terrorismo de grupos de indivíduos.

Nessa sinistra alvorada de um mundo inquietante, o que mais assombra é o contraste das oposições e contradições. No momento em que os americanos pareciam prestes a atingir a invulnerabilidade, sonho humano desde a era mitológica de Hércules e Aquiles, descobrem-se sem defesa contra outro tipo de ameaça. Na guerra do Kosovo, contra exército aguerrido como o sérvio, os militares conseguiram a proeza de não ter uma só baixa do lado vencedor. No entanto um punhado de suicidas armados de facas improvisadas e lâminas de barbear logrou, com perdas mínimas da parte dos atacantes, infligir ao gigantesco adversário danos incomensuráveis, humanos e morais, materiais e simbólicos.

Não é fácil encontrar na história exemplo de tamanha desproporção de custos e resultados numa ação de tipo militar dirigida contra inimigo incomparavelmente mais poderoso. É isso o que precisamente explica a contínua atração do terrorismo como arma dos desesperados ou fanatizados. Por mais que nos custe reconhecê-lo, pois sentimos justo horror diante do sofrimento causado a inocentes, a verdade é que às vezes o terrorismo compensa, ao menos para aqueles que o praticam. Não é por outra razão que da Caxemira a Sri Lanka, da Irlanda do Norte ao País Basco, da Córsega à Tchetchênia, para não recuar ao passado recente da África do Sul do apartheid, da Argélia ou do Vietnã, o terror foi ou é utilizado para romper o imobilismo de situações congeladas pela disparidade de forças. Se o status quo é percebido como intolerável por um grupo e esse não encontra no sistema político possibilidade de promover mudanças por meios pacíficos e institucionais, a tentação da violência será sempre uma alternativa.

Essa seria obviamente a situação menos "irracional", embora seja perigoso generalizar, pois existirão casos de ódio insensato, de fanatismo assassino, de patologia política e até de niilismo enlouquecido, de ânsia de aniquilar a civilização ocidental, conforme algumas interpretações do que acaba de ocorrer.

As investigações talvez desvendem melhor a natureza da ameaça presente. Desde já, é possível concluir que: 1º) o fim do "equilíbrio do terror" do mundo bipolar da Guerra Fria e a emergência de uma só superpotência não asseguram uma era de paz nem para essa última nem para o globo; 2º) a inviabilidade de guerra convencional de algum país contra os EUA devido ao desequilíbrio do poder não impede outro tipo de guerra total contra o povo e o governo americanos, a desfechada não por um país, mas por uma espécie de ONG de terroristas sem fronteiras e constantemente mutantes.

A conclusão principal é que o recurso unilateral à tecnologia não resolve esse problema e pode até criar novos. Da mudança climática à catástrofe de Chernobyl, da "vaca louca" às facilidades abertas ao terrorismo pela globalização, os avanços tecnológicos geraram perigos inéditos, ao mesmo tempo em que eliminavam os antigos. Até a fatídica terça-feira, 11 de setembro, uma nação poderia sonhar em isolar-se do planeta e refugiar-se no castelo invulnerável do poder tecnológico, da mesma forma que se iludem os nossos milionários atrás de suas muralhas. Essa quimera viu-se estraçalhada pela terrível imagem dos aviões explodindo em chamas contra um dos símbolos da "húbris" do homem moderno: as torres mais altas do mundo.

Ocorrendo simultaneamente à queda sincronizada de todas as economias industrializadas e ao sangrento impasse no Oriente Médio, o devastador assalto contra os EUA é sinal dramático de como aumentou a taxa de instabilidade e insegurança do sistema internacional, de como se acentuaram os riscos decorrentes da imprevisibilidade ou da perda de capacidade de controle que era exercido, bem ou mal, pela anterior estrutura de poder, relativamente mais previsível. Diante desses perigos e desafios, tem-se de voltar, como faz agora o governo americano, à busca da colaboração entre as nações, à edificação de alianças e coligações, a valorizar o que nos une, não o que nos separa, a substituir a estratégia de enfatizar as diferenças - como no caso do Protocolo de Kyoto ou da recente renovação das tensões com a Rússia, a China, a Coréia do Norte -, pelo esforço de somar as iniciativas de cooperação, a prestigiar o processo democrático das Nações Unidas. É esse o único caminho para uma economia mais próspera e estável para todos, a única maneira de encaminhar o conflito palestino-israelense em direção a um processo de paz e reconciliação entre esses dois povos que tanto sofreram.

É apenas assim que se conseguirá extirpar a calamidade do terrorismo: de um lado, removendo, na medida do possível, as causas profundas da frustração e do desespero, do outro, combatendo vigorosamente o recurso a qualquer tipo de violência contra pessoas inocentes por bandos terroristas e reagindo contra todo governo que os favoreça e proteja.

É dever de todos impedir que esse novo tempo seja um tempo de barbárie e de terror. Para isso, a solidariedade com as vítimas do terrorismo tem de ser ativa. Não basta o luto, o pesar, a consternação. É preciso agir para que não se imponha a lógica desvairada da destruição e da morte, para que o mistério da iniquidade não prevaleça sobre a face da Terra.


Falando a seguir, o professor Guilherme Casarões deu o seguinte depoimento:

“Os atentados do 11 de setembro de 2001 são frequentemente evocados como o marco que dá origem ao século 21. ‘O mundo mudou após a queda das torres gêmeas’ é uma máxima que permeia análises e estudos sobre as relações internacionais contemporâneas, transformando-se no senso comum que nos orienta.

Olhando-se em retrospectiva, contudo, os impactos do 11 de setembro devem ser relativizados. Elevá-lo à categoria de ‘divisor de águas’ da política global parece-me exagerado, por três razões básicas. Em primeiro lugar, os ataques não transformaram profundamente a política externa norte-americana. Segundo, o terrorismo como instrumento político não nasce com a Al Qaeda, e certamente não termina com ela. Por fim, e não menos importante, o excessivo enfoque no 11 de setembro desvia a agenda da política internacional da real tendência que caracteriza o mundo desta primeira década do século 21 – a ascensão dos emergentes.

Com relação ao primeiro ponto, é importante notarmos que a política externa americana, nas suas linhas gerais, não sofre uma mudança expressiva de rumos após o 11 de setembro, embora o episódio acabe por consolidar alguns temas muito caros aos Estados Unidos da América (EUA). Trato de dois aqui: o unilateralismo e o terrorismo. Ambos, sem dúvida, já faziam parte da política exterior do governo Clinton, sobretudo em seu segundo mandato (1997-2000). A crise de Kosovo e os bombardeios estratégicos ao Iraque, Sudão e Afeganistão demonstraram, de alguma maneira, que os americanos estavam decididos em avançar seus interesses mesmo sem a anuência expressa da comunidade internacional. É nesse contexto que a então secretária de Estado, Madeleine Albright, diria que os Estados Unidos são a ‘nação indispensável’, cabendo-lhes deliberar sobre o uso da força contra potenciais inimigos. Não surpreende o fato de que até mesmo aliados tradicionais passam a contestar a postura daquele que Samuel Huntington passa a chamar de ‘superpotência solitária’ – isto em 1999.

O terrorismo já constava, igualmente, nas considerações estratégicas norte-americanas. Não se trata de um fenômeno novo ao mundo, e nem mesmo aos Estados Unidos. A ameaça de grupos terroristas à maior potência do globo torna-se um problema concreto tão logo cai o Muro de Berlim. O primeiro atentado às torres gêmeas, aliás, ocorreu em 1993 – muito antes de se falar de Al Qaeda. Israel, aliado especial dos americanos no Oriente Médio, é alvo de terrorismo vinculado a grupos islâmicos há ao menos três décadas. Mesmo quando Osama Bin Laden torna-se o inimigo número um dos EUA, após o 11 de setembro, ele já havia sido acusado de perpetrar ataques contra alvos oficiais americanos: duas embaixadas, no Quênia e na Tanzânia, em 1998, além de um destroier da Marinha americana, USS Cole, em 2000.

Isso mostra, para dizer o mínimo, que as ameaças aos EUA não eram novas, e que tampouco a postura unilateral do governo americano era inédita. O 11 de setembro agravou tendências; não só externas, como vimos, mas também internas. A chamada ‘década perdida’ dos Estados Unidos – entre duas guerras e uma crise sistêmica – já vinha sendo semeada por governos anteriores. O desgaste econômico era visível em fins do governo Clinton. Politicamente, certas clivagens também se faziam evidentes, a julgar pela extrema polarização que marcou as eleições presidenciais de 2000 – aquela em que George W. Bush saiu vitorioso por uma margem milimétrica.

Nesse sentido, se o 11 de setembro representou, por um lado, um duro golpe contra o moral do povo americano, os atentados – e sua rápida resposta política, com a invasão do Afeganistão, a nova Doutrina de Segurança Nacional e a invasão do Iraque – criaram, por outro lado, um forte sentimento de unidade nacional (e mesmo de solidariedade internacional). Tratou-se de algo fundamental para a legitimidade de um governo que assume o poder fragilizado, e até mesmo sem rumo. A unidade durou pouco, é fato, mas o bastante para garantir a reeleição de W. Bush, em 2004, tendo se esvaído completamente após a crise econômica, três anos mais tarde.

Isso nos leva ao último ponto. A tragédia do ‘colosso dos pés de barro’, como diria o historiador Niall Ferguson, contrasta com a ascensão política e econômica de países como Brasil, Rússia, Índia e, sobretudo, China. Não é subestimar a supremacia americana, que ainda é inquestionável, mas atentar para a mais importante tendência das relações internacionais contemporâneas: a mudança do eixo de poder político e econômico para o “sul”, num movimento irreversível em direção a um mundo ‘pós-americano’.

Mesmo que não haja relação causal entre essa tendência e o 11 de setembro, pode-se dizer que as consequências de médio prazo das respostas americanas – a crise, a perda de legitimidade internacional, o antiamericanismo generalizado e o aprofundamento das rachaduras políticas e sociais nos EUA – evidenciam com cada vez mais clareza o que, em retrospectiva, já parece óbvio: o mundo, hoje, é dos emergentes.”

William Waack, o terceiro a se pronunciar, disse que uma das maiores dificuldades nos dias de hoje reside em estabelecer o que se pode e o que não se pode atribuir ao 11 de setembro. Destaque, nesse particular, para o declínio do império americano, que, no entender de Waack, não se deve ao 11 de setembro e sim aos erros de política externa cometidos ao longo desses anos.

Alunos de RI nas Reuniões do Banco Mundial-FMI em Washington, DC

Anualmente, no outono do hemisfério norte, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional realizam suas tradicionais Reuniões Anuais, com o intuito de discutir-se a situação econômica mundial, seus principais desafios e medidas necessárias para enfrentarem-nos, reunindo os mais renomados pensadores, representantes do setor privado e agentes governamentais. Desde 2007, sob a coordenação do professor Marcus Vinícius de Freitas, os alunos da FAAP têm participado ativamente das reuniões, sendo esta a quarta ocasião, desta vez em Washington, DC, na capital norte-americana.

O evento não poderia ser mais histórico. Pela primeira vez, uma mulher, Christine Lagarde, que visitou a FAAP em 8 de setembro de 2009, quando era ministra da Economia, Indústria e Emprego da França, está à frente de uma das mais importantes organizações internacionais. Como resultado, observou-se uma agenda que reafirmou a questão do empoderamento das mulheres como agentes essenciais de mudança, particularmente nos países que se encontram em transição, como aqueles atingidos pela Primavera Árabe.

Além disso, a crise econômica na Europa tem sido o principal foco da preocupação da comunidade internacional. Dentre os vários assuntos discutidos, foram destacados, particularmente, três:

  1. A inexistência de vontade política em resolver a situação de crise, considerando que, diferentemente de 2007, os instrumentos de políticas públicas para reaquecimento das economias se encontram cada vez mais reduzidos, num cenário em que o preço de petróleo continuará ascendente, além da enorme preocupação com os mercados acionários na Europa, atualmente incapazes de reativar a confiança dos investidores.
  2. O futuro da União Europeia está em jogo, uma vez que a situação na Grécia parece alastrar seus efeitos sobre os outros países da região, com fundamental preocupação quanto ao futuro do Euro como moeda comum, em face das restrições impostas pelo Banco Central Europeu e da impossibilidade de sua desvalorização, por parte dos países mais profundamente afetados, como forma de aumentar as exportações dos países em situação menos estável.
  3. O desemprego ascendente com prejuízo substancial da geração Y, que enfrenta enormes desafios em sua colocação profissional, devido à redução nas oportunidades de trabalho existentes nos mercados.
Os grandes temas da reunião foram amplamente discutidos num painel introdutório do renomado programa World Debate, promovido pela Rede Britânica BBC, com o famoso âncora Nik Gowing. Nesta ocasião, foram definidos muitos dos temas que seriam debatidos ao longo do evento, com particular ênfase aos desafios da Zona do Euro.

Além destes fatores, o maior desafio enfrentado pelos países nesta que é a maior crise dos últimos anos reside na difícil conjugação da necessidade de austeridade e redução de gastos públicos diante de uma necessidade de crescimento para assegurar um futuro mais próspero das próximas gerações. A sustentabilidade fiscal necessita ser restaurada para reconstruir a confiança para a recapitalização dos mercados de capitais globais.

Neste cenário de destino incerto, a recessão global persistirá, com o receio maior de que esta se transforme, de fato, num período de intensa contração econômica, com um impacto profundo no desenvolvimento econômico dos países.

Na ocasião os alunos tiveram, ainda, a oportunidade de encontrar-se com a Professora Ngaire Woods, da Universidade de Oxford, que participou do XVI Encontro Nacional dos Estudantes de Relações Internacionais (ENERI), organizado em Brasília em maio deste ano, com quem dois grupos anteriores também tiveram a oportunidade de conversar nas reuniões de Istambul, na Turquia, e de Washington, DC, em 2010.

Os estudantes, Amanda Pina, Carol Lacombe e Fellipe Trindade, juntamente com os veteranos Fábio Fukuda, Ludmila Molina e Stephanie Cerci, tiveram, portanto, a oportunidade de ver, em primeira mão, os grandes desafios a serem enfrentados nos próximos anos, em vários painéis, que trataram sobre os mais distintos tópicos, como Primavera Árabe, Geração de Empregos para a Geração Y, Efeitos Colaterais da Crise Financeira, Questão da Igualdade dos Gêneros, Comércio de Commodities e seu Impacto sobre os Países Menos Desenvolvidos, dentre inúmeros outros painéis de discussão.

Os alunos tiveram a oportunidade única de interagir com vários dos participantes e engajar-se ativamente em diálogos muito frutíferos intelectualmente. Sem dúvida, a conversa com o ex-ministro de Relações Exteriores, Celso Lafer, mereceu destaque, quando este fez uma avaliação positiva do importante papel desempenhado pela Organização Mundial do Comércio.

Além da participação ativa nos seminários, os alunos tiveram ainda a oportunidade de ir ao Ronald Reagan Building para assistir o show, “Capitol Steps”, uma sátira da política tradicional, estabelecida em dezembro de 1981, quando um grupo de funcionários do senador norte-americano Charles Percy estava planejando um tipo de entretenimento para a Festa de Natal. A primeira ideia, afirmaram os criadores do show, era representar a Natividade, porém tiveram “enorme dificuldade de encontrar no Congresso dos Estados Unidos três sábios ou uma virgem!”

O show retratou vários dos aspectos políticos da sociedade norte-americana, a questão do processo eleitoral e a escolha do futuro candidato republicano, a concorrer com o atual Presidente Barack Obama. Ao final do espetáculo, os alunos tiveram a oportunidade de conversar com todos os membros do show, que demonstraram um enorme carinho, particularmente pelo fato de representarem o Brasil.

O programa de seminários das reuniões anuais do Banco Mundial e FMI melhora a cada ano, em razão da riqueza e profundidade dos tópicos abordados. Para um estudante das relações internacionais, não há nada melhor do que a experiência de aprender diretamente daqueles que são efetivos protagonistas da ordem internacional, numa uma ocasião inesquecível, particularmente por oferecer a cada um melhor compreensão quanto ao seu papel futuro como um agente efetivo no cenário mundial.

A FAAP segue preparando seus estudantes para enfrentar os desafios e grandes dilemas de um mundo cada vez mais globalizado e interconectado, no qual o Brasil terá um papel ainda mais relevante. A preparação para as próximas reuniões, a serem realizadas em Tóquio, no Japão, em 2012, já começou!

Fotos e legendas


Foto 1 – Embaixador Georges Lamazière, diretor do Instituto Rio Branco, em sua exposição sobre a carreira diplomática.


Foto 2 – Márcio Rebouças falou sobre as características e dificuldades do exame de acesso ao Instituto Rio Branco.


Foto 3 – Christian Leffler, diretor-executivo para Américas do Serviço de Ação Exterior da União Europeia (EEAS).


Foto 4 – Embaixadora Ana Paula Baptista Grade Zacarias, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil.


Foto 5 - Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina, Ramez Goussous, embaixador do Reino Hashemita da Jordânia, professor José Alexandre Hage, Michel Alaby, da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Mohamad Abdouni Neto, cônsul honorário do Paquistão, Bachar Yaghi, embaixador da Liga Árabe, e Mustafá Abdouni, cônsul honorário da \Jordânia em São Paulo, momentos antes da palestra sobre A Primavera Árabe.


Foto 6 – Flagrante da palestra do embaixador Ramez Goussous.


Foto 7 – Embaixador Rubens Ricupero, fazendo seu depoimento sobre o significado do atentado de 11 de setembro de 2001, tendo á sua esquerda o professor William Waack, e à sua direita o professor Guilherme Casarões.


Foto 8 – Professor Guilherme Casarões.


Foto 9 - Amanda Pina, Fellipe Trindade e Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial.


Foto 10 - Ludmila Molina, Nik Gowing, apresentador do World Debate da BBC, Amanda Pina, Carol Lacombe e Fellipe Trindade.


Foto 11 - Ludmila Molina, professora Ngaire Woods, Fellipe Trindade, professor Marcus Vinícius de Freitas e Amanda Pina.


Foto 12 - Stephanie Cerci, Amanda Pina, Fabio Fukuda, Carol Lacombe e Ludmila Molina.


Foto 13 - Fabio Fukuda, Amanda Pina, Ludmila Molina, ministro Celso Lafer, Fellipe Trindade, professor Marcus Vinícius de Freitas e Carol Lacombe.


Foto 14 – Fellipe Trindade, Ludmila Molina, professor Marcus Vinicius de Freitas e Fabio Fukuda com o elenco do Capitol Steps.


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