|
Dócil vítima dessa benigna maldição
de nossos dias chamada de educação continuada
(que fez de nossos lindos diplomas verdadeiros certificados
do efêmero humano), vi-me na obrigação
de me debruçar sobre um daqueles temas marcados pela
“modernidade compulsória”. Foi assim que,
após muitas e antigas incursões, bastantes relutante,
me dispus a encarar uma pilha de gurus em papel falando de
liderança: a muito prolongada vivência do tema
sob a ótica política havia feito com que, de
forma assumidamente preconceituosa, visse com grande reserva
o enfoque da liderança em termos de competência
profissional organizacional ou seja, em suas abordagens confessadamente
mais pragmáticas.
Já disposto a encarar as náuseas intelectuais
comuns aos caminhos da mesmice e da “modernidade pragmática”,
comecei a me defrontar, mesmo que muitas vezes à revelia
de autores e suas propostas, com muito interessantes questões
que me revelaram (além da simples vergonha que o assumir
encanecido de preconceitos provoca): não apenas o envelhecimento
na desfaçatez intelectual de certos gurus bem como
a perspicácia e lucidez histórica de outros
que, injustamente, fiz crucificar na minha sanha inquisitorial
de acadêmico.
Como não fiz público e nominado meu repúdio,
do mesmo modo creio justo não me obrigar penitente
a retratações de quem não foi citado.
Assim, além de me surpreender por descobrir o encantamento
onde só imaginava a feiúra do mercantilismo
literário, pude ser acicatado a perceber que, nestes
tempos da Era do Conhecimento, os mais lúcidos apontaram
conteúdos que, no caso liderança, nos permitem
perceber os incrivelmente largos horizontes que a imprevisibilidade
nos obriga enxergar.
Despido do seu consagrado contorno divino de “herói
modesto”, o líder aparece, nesse universo de
organização extremamente dinâmicas, flexíveis
e mutáveis, como um servidor capaz de, quase sempre,
comandar pessoas que sabem mais do que ele; surgem visões
que o querem como um catalizador da criatividade alheia, como
um contador de historias, solidamente ancorado em princípios
éticos capaz de motivação exemplar.
Ainda caminhando a esmo nesse encantamento
pueril da descoberta, fomos nos dando conta de que, principalmente
pensadores da consistência e profundidade e de Drucker
e de Morin (acho que fui a extremos respeitáveis),
a sensibilidade para a real dimensão histórica
que vivemos passa a ser a “competência mater”
para a sobrevivência neste milênio já nascido
ancião pela celeridade intensa que vive.
É docemente cruel vermos o velho e finado líder
herói (tão caro e necessário aos mitos
essenciais do capitalismo), hora despojado de suas ricas vestes
de prepotência, ser relegado ao mais empoeirado e desinteressante
asilo dos “grandes homens”: tal ostracismo, (tanto
quanto o aceite unânime de que os novos padrões
nas hierarquias organizacionais pressupõem necessidades
de lideranças situacionais
bem como estruturas quase planas de poder), revela que a própria
essência civilizatória do conceito de poder vive
aquela que poderia ser designada como a mais visceral mudança.
Parece que os tempos do poder abrirão espaço
definitivo para os tempos da autoridade, tempos nos quais
as lideranças como nunca não nascerão
das canetas que contratam e promovem, mas do conhecimento
e adesão de equipes cada vez
mais bem preparada para o enfrentamento da imprevisibilidade
e da mudança e, aos donos daquelas canetas, ficará
restritos o referendar das lideranças nessas equipes
nascidas.
Desvario utópico e neo-democrático?
Espero que não!
O que sei é que, levado por quem não esperava
a repensar algo que imaginava esgotado, dei-me conta de que,
em matéria de futuro e de competências futuras,
prática será a abordagem que consiga se polarizar
no essencial, no profundamente essencial, já que, ante
o poder transformador de tempo, tudo que não for fundamental
será resíduo não reciclável, lixo
imprestável produzido e armazenado pela inconseqüência
dos ultrapassados.
|