Neste início de 2003 cabe tecer algumas considerações
sobre o comportamento das principais variáveis macroeconômicas
do país em vista da política econômica
praticada em 2002, bem como sobre o que se pode esperar das
diretrizes do novo governo.
O mercado financeiro internacional passou por um momento
muito desfavorável em 2002. Os abalos provocados
pelos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 não
haviam sido superados, quando as bolsas norte-americanas
foram atingidas por uma série de problemas que decorreram
da inobservância de princípios elementares
de governança corporativa por parte das empresas.
Assim, em um espaço de tempo relativamente exíguo,
equivalente ao primeiro trimestre do ano passado, empresas
como Enron, WorldCom, Xerox e outras, experimentaram o gosto
amargo da reclassificação de suas ações
em termos do risco que ofereciam, concordatas e dificuldades
de toda a sorte. Em todos esses episódios, um traço
comum: o absoluto desprezo pelos direitos dos acionistas
e a adoção de critérios contábeis
e gerenciais no mínimo discutíveis. A conseqüência
fez-se sentir imediatamente: queda das cotações
e grande aversão ao risco das aplicações
em renda variável, tendo ocorrido uma migração
dos recursos para papéis do tesouro norte-americano.
Essa situação, por si só, deveria configurar
uma grande dificuldade para os países emergentes,
atingindo não apenas o Brasil, mas também
outros países na mesma situação. O
risco país deveria sofrer um acréscimo considerável,
reduzindo-se as cotações dos papéis
da dívida externa e ocorrendo um acréscimo
nos juros cobrados pelo mercado para as operações
de empresas brasileiras no exterior. Ocorre, no entanto,
que a essa dificuldade se somou uma outra, decorrente do
temor do mercado em relação à sucessão
presidencial. O avanço da candidatura de oposição
despertou temores de que um governo Lula viesse a representar
o descumprimento de obrigações assumidas internacionalmente
pelo país.
Assim, após um primeiro trimestre em que ocorreu
uma captação considerada normal, os recursos
começaram a escassear, tanto na parte dos investimentos
diretos, como - especialmente - na parte referente às
linhas de crédito. Em conseqüência dessa
situação e contando com um sistema de câmbio
flutuante e metas de inflação, o ajuste da
taxa cambial para cima foi inevitável. A partir de
uma cotação de R$ 2,30 no início do
ano, a taxa de câmbio atingiu um patamar equivalente
a R$ 2,27 em abril, para, na seqüência, crescer
continuamente até o nível de R$ 3,95 por dólar
em outubro, ocorrendo desvalorizações mais
pronunciadas todas as vezes que havia uma notícia
confirmando o avanço da candidatura de oposição
ou então quando havia o vencimento de títulos
da dívida pública indexados à variação
cambial. Mais que isso, a partir de junho começou
a haver uma retração nas linhas de crédito
comercial, que normalmente apresentavam-se quase inalteradas
nas crises por que passou o real anteriormente, mantendo-se
oferecidas mesmo quando a situação conjuntural
não era favorável.
Em virtude desse fato, não restou outra alternativa
ao governo que a negociação, em agosto de
2002, de uma nova linha de crédito "stand-by"
com o FMI. Essa operação, aprovada por aquela
instituição internacional em prazo extremamente
exíguo, tinha o valor total fixado em US$ 30 bilhões,
dos quais a maior parcela (equivalente a US$ 24 bilhões)
deveria ser sacada no decorrer de 2003, pelo novo governo
que viesse a ser eleito.
O FMI condicionou a operação à obtenção
de compromisso dos candidatos em relação à
estabilidade monetária e manutenção
dos princípios de responsabilidade fiscal, o que
foi feito. Esse fato, juntamente com a forma em que se processou
a transição de governo se constituem em fato
inédito na história política do país
e, sem dúvida, contribuíram para caracterizar
o grau de democracia que o Brasil atingiu, completando assim
o processo de transição para a democracia,
iniciado em 1985. A despeito desse fato auspicioso, a percepção
do risco Brasil continuou muito elevada, contribuindo para
uma redução no nível das reservas líquidas
ao final de 2002, causada essencialmente pela carência
de recursos nas linhas de crédito em geral, que inclusive
atingiram as linhas comerciais, destinadas ao financiamento
de exportações e importações.
De acordo com dados recentemente divulgados pelo Banco Central
, durante o ano de 2002 a taxa de rolagem global da dívida
externa brasileira ficou em 40%, o que significa que menos
que a metade dos empréstimos bancários ou
através de títulos colocados no mercado de
capitais foi renovada. A conta de capital do balanço
de pagamentos, que registra as transações
referentes a empréstimos em geral, investimentos
diretos e linhas de crédito comercial, encerrou o
exercício com saldo positivo de US$ 12 bilhões,
dos quais US$ 11,5 representados pelos recursos obtidos
junto ao FMI. Enquanto isso, os ingressos de empréstimos
de médio e longo prazo encolheram em US$ 15,9 bilhões
e os de curto prazo se reduziram em US$ 6,9 bilhões,
sempre em relação ao ano anterior.
Por outro lado, nas operações com títulos
realizadas no mercado de capitais, os compromissos que puderam
ser rolados, que haviam atingido nível equivalente
a 82% do total em 2001, corresponderam em 2002 a apenas
31% do total das operações vincendas. Também
nas linhas de crédito interbancárias a retração
foi substancial: ocorreu um corte no montante de US$ 7,5
bilhões desde janeiro de 2001, com um saldo de somente
US$ 14,5 bilhões em dezembro último. Finalmente,
a mesma retração se operou nos investimentos
diretos: eles somaram US$ 16,6 bilhões em 2002, contra
um volume de US$ 22,5 bilhões no ano anterior.
Diante desse quadro extremamente difícil, torna-se
importante destacar o vigoroso ajuste promovido nas contas
externas durante o exercício que se findou. O déficit
registrado em 2001, de US$ 23,2 bilhões, equivalendo
a 4,55% do PIB, foi encurtado para 1,67% do PIB, ou seja,
pouco menos de US$ 7,8 bilhões. Isso foi possível
devido ao excepcional superávit obtido nas contas
de comércio, que atingiram a marca dos US$ 13,1 bilhões.
As exportações cresceram 3,7%, passando de
US$ 58,2 para US$ 60,3 bilhões, enquanto que as importações
se reduziram em 17,65%, de US$ 55,5 para US$ 47,2 bilhões.
Na conta de serviços, em que são registradas
as entradas e saídas de recursos referentes a fretes,
royalties, dividendos, juros e viagens internacionais, também
ocorreu um ajuste, ainda que menos significativo. As despesas
com viagens internacionais caíram de US$ 1,4 bilhão
em 2001 para menos de US$ 398 milhões em 2002, enquanto
que os gastos com juros passaram de US$ 13,1 bilhões
para pouco menos de US$ 12,9 bilhões. Por outro lado,
os dispêndios com dividendos cresceram em 2002, passando
a U$ 5,2 bilhões, contra uma remessa de US$ 4,9 bilhões
no ano anterior.
Certamente os resultados obtidos são devidos, em
parte, ao processo de desvalorização da moeda,
já descrito. No entanto, deve-se ressaltar dois pontos
importantes: o crescimento da competitividade da economia
brasileira que, a despeito de um ano adverso conseguiu elevar
o volume e valor das exportações, ao mesmo
tempo em que introduzia uma sadia substituição
de importações. Em ambos os casos esse processo
deverá continuar em 2003, contribuindo para a obtenção
de resultados ainda mais expressivos. O grande vencedor
do ano, no entanto, é o regime de livre flutuação
cambial e de metas de inflação, porque ele
permitiu a absorção de um choque das proporções
do de 2002, sem que houvesse um distúrbio maior das
contas brasileiras.
Para 2003, a despeito das dificuldades de natureza externa
derivadas da situação no Iraque e da recessão
norte-americana, as perspectivas são no sentido da
continuação do ajuste externo, sendo de se
esperar a redução do déficit de conta
corrente para US$ 6,6 bilhões. Certamente deverá
haver um grande esforço no fronte comercial, de modo
a ampliar o superávit obtido no ano passado, seja
através de uma ação mais agressiva
nos mercados tradicionais, seja por meio da conquista de
novos mercados, como o chinês e o indiano. Tudo isso,
no entanto, não se afigura como uma tarefa impossível,
tendo em vista as diretrizes que se vai conhecendo do novo
governo. A ação concentrada no esforço
exportador, ao lado de uma política econômica
responsável nos aspectos fiscais e monetários
certamente contribuirá para a redução
da percepção de risco no exterior e ampliação
das perspectivas econômicas neste ano.